A borba gata de Roraima e o marco temporal

Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 29 de agosto, do jornal DIÁRIO DO AMAZONAS

Quinta-feira (26). Três fatos interligados acontecem no mesmo momento, dois em Brasília e um em Boa Vista. No plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Edson Fachin lê o relatório sobre o marco temporal que definirá o destino da demarcação das terras indígenas. Lá fora, na Praça dos Três Poderes, mais de 6 mil indígenas de quase 200 etnias acompanham a leitura em um telão. Distante dali geográfica, mas não política e afetivamente, a macuxi Matilde da Silva defende dissertação de mestrado em letras na Universidade Federal de Roraima, na qual registra histórias que circulam oralmente na Serra da Lua, levando saberes de uma geração à outra.

Algumas histórias, a mestranda ouviu na sua infância e conservou em sua memória. Decidiu registrá-las apoiada em Conceição Evaristo, para quem “o mundo começa a partir de nosso lugar de vivência” e, por isso, propõe o que denomina de “escrevivência”, uma escrita de construção identitária ancorada no lugar de vivência de cada um, que não se esgota em si, mas amplia o gesto e recolhe as histórias coletivas do entorno. Desta forma fica “mais fácil dialogar e compreender o lugar do outro” e o seu próprio lugar.

Outras histórias, Matilde recolheu para sua pesquisa, ouvindo quatro idosos guardiães de saberes e falantes de makuxi: três mulheres e um homem. Consciente de que narrativas orais são sempre atualizadas com a introdução de novos elementos, ela confrontou as versões atuais com as recolhidas em 1911, na mesma região, por Koch-Grünberg, para ver o que permaneceu e o que mudou. Uma delas, que Matilde lembra ter ouvido pela primeira vez em 1984, é “A árvore do mundo e a grande enchente”, narrada ao etnólogo alemão pelo arekuna Akúli. A outra é “A visita ao céu”.

Línguas indígenas

Para analisar os relatos, alguns transcritos em duas línguas, a recém-mestra em Letras usou as ferramentas proporcionadas por teóricos conhecidos na academia – Walter Ong, W. Benjamin, Hall, Barth, Bhabha, Zumthor, Todorov – fazendo-os dialogar com pensadores indígenas, entre eles Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Graça Graúna, Marcia Kambeba, Eliane Potiguara, Julie Dorrico, Gerson Baniwa.

A partir de sua própria história de vida, Matilde destaca o papel dos narradores na construção das identidades dos povos originários, questiona o conceito de “índio” e sua situação em contexto urbano, avalia o papel da escola e da televisão, aborda a relação com a natureza e com a comunidade e menciona diferentes tipos de bilinguismo: seu pai bilingue português-makuxi e sua madrasta inglês-makuxi se comunicam na língua indígena. A sua mãe, filha de Wapixana com Makuxi, cuja primeira língua é o português, entende o que lhe falam em makuxi, mas responde na língua portuguesa.

– “Quando criança, eu não aprendi a língua dos meus ancestrais” – escreve a mestranda, explicando que se comunicava com a avó paterna com ajuda de intérprete. Mesmo agora, depois dos 40 anos, Matilde não é fluente em makuxi, “do jeito que eu gostaria”. Sua avó materna, 80 anos, fala Makuxi; sua mãe apenas entende e a partir da terceira até a quinta geração, a única língua é o português. “Se continuar nesse ritmo, a tendência é não existir nenhum falante dessa língua na minha família. Na escola, professores de línguas indígenas sempre relatam que os alunos costumam sair de sala para não assistir sua aula” – ela lamenta.

Ela atribui isso ao preconceito ainda muito forte, que ameaça as línguas e os saberes indígenas. Dedica várias páginas de sua dissertação para refletir sobre a discriminação, com críticas à escritora Nenê Macaggi, que emprestou seu nome ao Palácio da Cultura inaugurado em 1993 pelo governador nomeado pela ditadura, Ottomar de Souza Pinto. Afinal, quem foi Nenê Maccagi, uma espécie de Borba Gata de Roraima, que formulou as bases das políticas culturais locais?

Mulher do garimpo

A jornalista e escritora Maria Macaggi (1913-2003) nasceu no Paraná e viveu alguns anos no Rio. Próxima ao poder, foi enviada em 1940 pelo ditador Getúlio Vargas para fazer uma reportagem sobre a Amazônia, para onde acabou se mudando de mala e cuia. Em Manaus, sua beleza encantou o interventor Álvaro Maia, que a nomeou delegada especial do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) em Roraima, então município do Amazonas, cargo que ocupou durante quatro anos. Aproveitou para realizar atividades de mineração em terras indígenas, experiência que serviu de base para o romance A mulher do garimpo.

O garimpeiro é o herói da narrativa. Lá, em 417 páginas, Nenê Macaggi defende a invasão do território indígena pelos forasteiros e apresenta o índio como “feio, baixo e grosso, que fede a caracu de boi ou a brilhantina barata”. Segundo um dos personagens. “as roças são pequenas, porque o índio, preguiçoso por natureza, tendo o necessário para tirar delas, detesta fazer tudo o que lhe dá muito trabalho. Não planta arroz, tabaco, tomate e frutas variadas, fazendo questão só de mamão e banana, jerimum e cana, melancia e maxixe, macaxeira e mandioca”.

Em sua dissertação, a mestranda makuxi comenta:
– “O intrigante – constata Matilda, é que o nome de Nenê Macaggi é sinônimo de cultura no Estado de Roraima. Mas felizmente escritores indígenas têm conquistado cada vez mais espaços e com isso vem mostrando ao mundo que resistem”.

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