A Capitã Cloroquina, o tênis e o pênis

Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 30 de maio, do jornal DIÁRIO DO AMAZONAS

Essa versão cearense daquela piada manjada e preconceituosa aconteceu de verdade na Praia de Iracema, em Fortaleza, a antiga Praia do Peixe. Taí minha irmã Tequinha que não me deixa mentir. Ou deixa? Da varanda de sua residência de veraneio, ela viu quando uma jovem senhora que passeava no calçadão parou na Ponte dos Ingleses para curtir o pôr do sol e foi logo abordada por Chico Feitosa, figura popular que vendia água de coco e até protetor solar aos banhistas, competindo com um batalhão de vendedores ambulantes.

Apelidado de Fon-fon, o Chiquinho Feitosa tinha o lábio leporino ou “goela de lobo”. A fissura no lábio superior, agravada por um buraco no céu da boca que atingia a base do nariz, alterava sua fala. A situação piorou quando, diagnosticado com um câncer na próstata, ele foi capado numa cirurgia para controlar a doença, que podia ser mortal. Tristonho e macambúzio, consultava todos os médicos que passavam pela praia para tentar recuperar o bem perdido que lhe haviam cortado.

Foi aí que Fon-fon se deparou com a pediatra neonatologista Mayra Pinheiro, bastante conhecida naquela praia. Numa manifestação pública em 2013, ela havia gritado raivosa aos médicos cubanos que voltassem “para a senzala”. Um ano depois se candidatou a deputada federal e em 2018 ao Senado (Partido Novo, vixe vixe), sendo derrotada em ambas com votação inexpressiva. O Fon-fon, seu cabo eleitoral, distribuíra gratuitamente “santinhos” na praia. Agora, diante dela, perguntava o que fazer para se curar da castração.

A fala e o falo

A Tequinha, que quase não é fofoqueira, de onde estava não ouvia nada. Enviou seu filho Fabico, jornalista, para fazer a cobertura daquele encontro na Ponte dos Ingleses. Ele desceu rapidamente e acompanhou tudo. Reproduzo aqui aquilo que meu sobrinho apurou.

Mayra, conhecida como “Capitão Cloroquina”, receitou o remédio para curar a fala e o falo do fanho Feitosa. Tirou da bolsa Vuitton um vidro com um líquido espesso. Era uma “garrafada” ou “lambedor”, em cuja composição entrava cloroquina, ivermectina, azitromicina e mel de rapadura indicada para covid-19, castração do pênis, lábio leporino, pereba no pé, maneba na mão, coceira no corpo e curuba não-digo-onde, além de frieira, febre aftosa e tristeza parasitária bovina. A “Garrafada da Mayra”, válida até as eleições de 2022, garantia no rótulo que trazia de volta a fala e o falo.

– Tome uma dose três vezes ao dia – ela recomendou.

O Fon-fon tomou a primeira lapada ali mesmo. Os dois caminhavam pela praia quando viram uma lâmpada na areia. A médica derramou sobre ela o líquido cloroquinado, transformando-a na lâmpada mágica de Aladin. De dentro dela saiu um gênio que se curvou diante do Chico Fon-fon:

– Faz três pedidos, atenderei tuas súplicas.

Estimulado pela doutora Mayra, Fon-fon, com sua fala que suprimia consoantes como o “p” de Pazuello, rogou:

– Um …into. Um …into.

O gênio colocou ao seus pés um cinto. Fon-Fon usou o “c” de cloroquina.

– Nããão. Eu …ero um …aralho.

Quando viu diante dele um baralho, abriu o zíper da calça onde outrora residira sua “alavanca-de-arquimedes”, apontou pra lá e berrou desesperado:
– Um …ênis,

O gênio entendeu que era o “t” de Traticov e entregou-lhe o par de Nike Moon Shoe.

CPI e CTI

A partir desse episódio, Mayra e Carlucho, seu colega no gabinete das sombras, passaram a ver pênis até no Kremlin. Na sessão desta terça (25) da CPI da Covid, que ouviu o depoimento da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, o seu vice-presidente, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) exibiu áudio no qual Mayra acusa a Fundação Oswaldo Cruz – uma instituição respeitada no mundo inteiro – de ser comunista e de ter “um pênis na porta” de sua sede. Inacreditável.

Diante de tal disparate, o presidente da CPI, Omar Aziz, corrigiu o seu colega, jurando que, da mesma forma que o gênio da lâmpada, ele havia ouvido “tênis”. Efetivamente, P e T são fonemas que distinguem significados de palavras. Cada um ouve de acordo com seus interesses e seus fantasmas. Por isso, ao telefone, esclarecemos: “P” de “pato”, “T” de “tatu” para não transformar uma CPI em uma CTI. Descendente de árabes, o avô de Omar falava “babai” por “papai”, sons que são neutralizados também quando, por exemplo, falamos com máscara.

A aguerrida Capitã Cloroquina desdenhou a tentativa de contemporização do Omar Aziz e reafirmou com todas as letras que havia dito “pênis” mesmo, com “p” de Pazuello, assim reproduzido no áudio:

– (…) Eles têm um pênis na porta da Fiocruz, todos os tapetes da porta são a figura do Che Guevara, as figurinhas são do Lula Livre, Marielle Vive. Então é um órgão que tem um poder imenso, porque durante anos eles controlaram a saúde do país através do movimento sanitarista que foi todo construído pela esquerda, eles mandam no Ministério da Saúde”.

Questionada por Randolfe se ainda concorda com o que disse na gravação, Mayra teve a petulância de responder que sim. O pênis inflável que ela viu era o castelo representado no logo da instituição.

A fala despirocada da Capitã Cloroquina, ridicularizada no Brasil e no exterior, se auto propagou em memes e trendig topics no Twitter. É espantoso que essa cena tenha tido por palco o Senado e o Ministério da Saúde. O Brasil, sinceramente, não merece a Capitã Cloroquina, nem muito menos “o meu gordinho de estimação”. Meu Deus, em que terra plana nos meteram!

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