A capivara, os índios e a boiada de guerra

Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 13 de março, do DIÁRIO DO AMAZONAS

O que a guerra da Ucrânia a 10.500 kms de distância tem a ver com o bairro de Aparecida? De que forma a invasão russa afetou os moradores que vivem em suas quinze ruas e treze becos outrora denominados com nomes sugestivos de Pau-não-cessa, Chora-vintém, Saco-do Alferes? Num deles mora a Leonor e sua família, que podem nos dar uma ideia da tragédia vivida pelos povos habitantes milenários do nosso país, se fizermos um exercício de imaginação.

Supunhetemos que no quintal da Leonor haja indícios da existência de potássio – base para fertilizantes usados na agricultura. O governador Wilson Lima (vixe, vixe), puxa-saco do Bozo (vixíssimo), quer compensar o dano da guerra causado ao Brasil com o corte do fornecimento russo. Então, decide invadir o nosso bairro e derrubar todas as casas, diz-que para explorar o potássio existente debaixo delas.  A Leonor e os 7.989 moradores do bairro, sem teto e sem chão, que se lixem.  

Essa supunhetação é para dar ao leitor do Diário do Amazonas, a quem preferencialmente me dirijo, a dimensão da tragédia dos povos que habitam há milênios o nosso país. O gado que o Bozo pastoreia na Câmara dos Deputados aprovou, na última quarta (9), o regime de urgência para a votação do projeto de lei que libera a mineração em terras indígenas, cuja invasão é uma “forma de superar a dependência brasileiro da Rússia no acesso a fertilizantes”. O presidente da Casa, o pau-mandado Arthur Lira, acatou essa alegação mentirosa. 

A boiada

Tem tanto potássio nas terras indígenas, quanto no quintal da Leonor. Ou seja, praticamente nada. Trapaça do Bozo, cujas mentiras deslavadas o Brasil inteiro conhece. O potássio, em sua boca, equivale à declaração de que a cloroquina cura a Covid-19 e que a vacina causa Aids, o que envolve a máquina do estado com informações falsas e criminosas, que geram mortes. Os dados do levantamento feito pelo insuspeito Estadão mostram que “a maioria das principais minas de potássio está localizada fora de terras indígenas”. 

Pesquisas feitas pela Universidade Federal de Minas Gerais comprovam que o Brasil tem reservas para garantir o abastecimento de potássio até o ano 2100, dois terços delas em Sergipe, São Paulo e Minas Gerais, segundo Raoni Rajão do Departamento de Engenharia de Produção da UFMG, Não há evidência de jazidas significativas de potássio nos territórios cobiçados de acordo com os dados do próprio Ministério de Minas e Energia.

O projeto de lei que abre terras indígenas para a mineração foi enviado à Câmara dos Deputados por Sérgio Moro, então ministro da Justiça, em fevereiro de 2020, por ordem de Bolsonaro. Era tão escandalosamente criminoso que ficou em compasso de espera, mesmo quando se “passava a boiada” de leis legalizando crimes ambientais, se valendo de que a opinião pública estava “distraída” com a pandemia. Agora, com a mídia focada na guerra da Ucrânia, a “boiada” ensaia passar outra vez, acelerando a tramitação do projeto, sem passar pelas comissões temáticas. 

O Ministério Público Federal (MPF) considerou o projeto um “vício insanável”, “uma falácia”. Procuradores disseram à Folha de SP que vão arguir a sua inconstitucionalidade. Os parlamentares do Amazonas que votaram pela urgência – anotem os nomes deles – foram Bosco Saraiva, Delegado Pablo, Silas Câmara, Cap Alberto Neto e Sidney Leite (vixes, vixes). Eles não hesitariam em derrubar a casa da Leonor.  O único voto contra foi de José Ricardo Wendling (clap clap). 

O ato da terra

A reação contra esse crime veio dos índios e de seus aliados. Na quarta-feira, milhares de pessoas se reuniram na Praça dos Três Poderes, em Brasília, no Ato pela Terra, para protestar contra o Pacote da Destruição, composto por vários projetos de lei, entre eles o “PL do Veneno” que abre o país para os agrotóxicos e vários outros que tratam do licenciamento ambiental, da grilagem de terras públicas, da exploração mineral em terras indígenas e do marco temporal.

O ato contou com a presença de líderes indígenas, representantes de movimentos sociais e mais de 40 artistas, entre os quais Caetano Veloso, Emicida, Nando Reis, Daniela Mercury, Lázaro Ramos, Maria Gadú, Nathalia Dill, Seu Jorge. Um grupo se reuniu com os ministros do Supremo Tribunal Federal e com o presidente do Senado Rodrigo Pacheco que declarou:

– Essa é uma das mais belas manifestações da sociedade civil que este Congresso Nacional já viu. Nós vamos ter toda a cautela porque não podemos ser compreendidos – nem o Congresso Nacional nem o nosso país – como párias internacionais afastados da pauta do meio ambiente.

A capivara inflável esteve presente ao ato para registrar seu protesto? Que o Wilson Lima não se meta à besta para procurar potássio no quintal da Leonor. Lá, no antigo bairro dos Tocos, os comandantes Eudimar Bandeira e Armando Barrella reagiriam à altura, mostrando que não é mera coincidência o Beco do Pau-não-cessa ter essa denominação. 

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