Contando histórias nos rios da Amazônia: o peso das palavras

Leia o artigo Taquiprati deste domingo, 25 de novembro, assinado por José R. Bessa Freire

“Vedi Napoli e poi muori”
(adágio italiano)

Quantos quilos tem uma palavra? E por acaso palavras têm peso? Os participantes do “Amazônia das Palavras” conferiram isso numa balança da expedição literária iniciada em Manaus (4/11) e encerrada em Porto Velho nesta quarta (21). Pesaram suas palavras, navegando 1.300 km pelos rios Negro, Amazonas e Madeira. Trabalho intenso.

De manhã e de tarde, oficinas com alunos de escolas de oito cidades ribeirinhas e de uma aldeia indígena. À noite, aula-espetáculo e apresentação do palhaço engolidor de letras. Descanso, só no trajeto de barco de uma cidade à outra.

Os estivadores da cultura desceram em cada porto se equilibrando em pranchas. Subiram barrancos, enfiaram o pé na lama, enfrentaram chuva torrencial e sol escaldante, brigaram com mosquito, mutuca, muriçoca, pium e potó – um inseto parente do besouro que queima a pele. Tudo isso para levar e recolher vozes, frases, narrativas.

Verificaram que palavras nascem, crescem, se transformam, envelhecem, morrem. Nas histórias que contaram e ouviram de crianças e jovens, estimularam a leitura de palavras escritas, faladas, cantadas e animadas, ressuscitando antigas e aprendendo novas.

No trajeto do barco, a expedição literária cruzou com enormes balsas transportando soja que começa a invadir a floresta, encontrou marcas do garimpo que envenena o rio e observou a existência de um pequeno grupo que enriquece às custas da população que empobrece, sem assistência médica, com educação precária. Apesar disso, nas escolas da periferia brotaram surpreendentes manifestações de criatividade de alunos de 10 a 17 anos. Foi possível constatar em muitos “o brilho no olhar” que a professora Ivanir Lima, de Manicoré, observou nos indígenas Mura ali presentes.

A escola Mura
Dez crianças Mura viajaram nove horas até Manicoré acompanhadas de seus professores Maikon Douglas, 26 anos, e Jonas Gomes, 29 anos, só para participarem das oficinas, entre as quais a de contação de histórias indígenas.

Ouviram atentamente a saga da Sogra do Jacamim, recolhida no séc. XIX pelo botânico Barbosa Rodrigues, com um minitratado de ornitologia dos pássaros da Amazônia. Escutaram fábulas do jabuti, da onça, do jacaré e do índio que matou uma veada recém parida, ainda amamentando, punido por Anhangá que transformou o animal morto na mãe do caçador.

Algumas narrativas foram registradas no séc. XIX por Couto de Magalhães, Stradelli e Charles Hartt, de cujos livros foram retiradas como quem tira do hospital um doente já curado. Outras, mais recentes, conheci nos cursos de formação de professores indígenas que ministrei em diferentes regiões do Brasil. Narrativas míticas como a criação do universo pela avó do mundo, fecundada pela música, que assim pariu os seres humanos, estimulou os Mura a contarem suas versões.

Ouvi histórias que não conhecia. Um menino Mura, Kaynã de Oliveira, 13 anos, neto de índia Tukano do rio Negro com um Mura do rio Madeira, “lavou a égua” como dizemos no Amazonas. Performático, com domínio de palco, gestos precisos, ele mandou ver. Foi lá na frente e contou várias histórias, seguido por Camila de Oliveira, 9 anos e por Emanuel Batista, 8 aninhos. Em sua escola indígena, eles participam de projetos como “Hora de Ler” e “Produção de contos”, quando reescrevem histórias narradas ou lidas. Já produziram mais de 50 contos que estão sendo digitados para um livro.

Essas crianças, “sedentas de literatura”, segundo a professora Ivanir Lima, retornaram no barco da expedição para sua aldeia da Boca do Jauari. Elas próprias armaram suas redes coloridas e foram despertadas cedinho pelo palhaço Cloro, que usou cobras e aranhas para “assustá-las”. De brincadeirinha, elas fingiam estarem atemorizadas.

Depois morrer
Na aldeia foi plantada, como nas demais escolas, uma muda de pau-brasil, símbolo de quem resiste. Com suas próprias mãos, as crianças Mura preencheram o buraco com terra e adubo.

As vozes da Amazônia continuaram navegando, de bubuia, pelo rio Madeira, oferecendo vários espetáculos. O balé permanente de botos brincalhões que seguiam o barco, uma tempestade de areia que varreu a praia, um soberbo pôr-do-sol, uma lua esplendorosa crescendo a cada noite, pássaros e borboletas coloridas que se exibiam em voos rasantes na floresta à margem do rio, onde de quando em quando se via a casa de um ribeirinho mergulhada na solidão. O tempo que escoava, lentamente, em outro ritmo, estimulando conversas intermináveis no barco, descoberta de gente, trocas de afeto.

Tudo filmado por equipes de cinegrafistas.

– Não morra antes de ver Nápoles – aconselha a sabedoria popular italiana. Esse foi o sentimento compartilhado pelos participantes da expedição literária, que descobriram não valer a pena morrer sem antes navegar pelo rio Madeira, contando e ouvindo histórias amazônicas. Uma esperança nesse Brasil bolsonarizado pela barbárie. Morrer ante disso sem a chama da resistência seria uma ironia, um desperdício. A Amazônia das palavras ficou no coração e na lembrança de cada um de nós. Vedi Napoli e poi muori.