Cresce número de candidatos militares para cargos eletivos

Para especialistas, a fragilidade da segurança no Amazonas faz com que candidaturas militares, que prometem “resolver” a situação, estejam em crescimento, mas sem o autoritarismo

Manaus – O crescimento expressivo de candidaturas das forças militares para as eleições deste ano não apontam um retorno para a quebra da democracia, mas resulta do aumento da sensação de falta de segurança da sociedade. A opinião é de especialistas ouvidos pela REDE DIÁRIO DE COMUNICAÇÃO (RDC). Segundo as avaliações, a fragilidade da segurança pública no Amazonas faz com que candidaturas militares, que prometem “resolver” a situação, estejam em crescimento.

Candidaturas com as plataformas voltadas para a questão da segurança têm crescimento. (Foto: Reinaldo Okita)

De acordo com o sociólogo e cientista político Carlos Santiago, o Brasil sempre teve uma tradição militar muito forte na política, pois a institucionalidade do País não funcionava de forma normal, o que acabou desencadeando, em alguns períodos da República, o uso da força representada pelos militares com uma ideia de Nação, mas, segundo Santiago, o atual cenário é muito diferente do passado.

“No contexto atual, o que temos é uma crise de democracia e uma crise moral no País. Isso traz de volta o pensamento de que os militares são capazes de resolver crises políticas e a falta de credibilidade das instituições que não dão resposta às demandas da sociedade. Só que vivemos outros tempos em que a hegemonia da democracia direta e representativa é muito forte na sociedade brasileira. Em função disso, se faz necessário os militares entrarem no jogo para ter força”, afirmou.

Santiago destacou que as eleições são importantes para os militares, nesse momento, pois, para eles, a questão do combate à corrupção se consagraria. “Ainda bem que eles querem participar do processo da escolha, antigamente foi diferente”, ressaltou.

Para o cientista político, professor Elso do Carmo, no Brasil sempre houve nos parlamentos representantes militares, inclusive, segundo ele, alguns valorosos. O professor analisa que o crescimento de candidaturas militares é real nas eleições de 2018, pois, um dos temas que vai ser ponto fundamental em qualquer campanha política deste ano, que é a segurança pública.

“O cidadão clama por mais segurança. O Brasil está entre os cinco países mais inseguros do mundo, então, esse discurso vai ser cada vez mais empregado. O fato de Jair Bolsonaro estar bem nas pesquisas acaba alavancando outros nomes que pegam carona nesse discurso de que vão resolver a situação. Acaba virando um discurso fácil, em relação ao que vive a população brasileira”, ponderou.

Para o coordenador do Núcleo de Cultura Política da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) professor Ademir Ramos, se for analisado o recorte específico relativo às eleições 2018, as candidaturas militares se qualificam pela conjuntura resultante dos governos petistas, que tinham um viés de esquerda combativo contra a corrupção e a impunidade.

“No entanto, a prática comprovou que tudo não passava de uma pura enganação, fato este que fez com que o Lula e a direção do PT fossem presos com seus comparsas, provocando um enorme retrocesso nas frentes de lutas pela Igualdade e justiça social. Ante a conjuntura, a chamada direita que se qualifica pela concentração de poder e do capital cresceu ampliando sua articulação junto às oligarquias tradicionais com ranço de um nacionalismo desenvolvimentista”, avaliou.

De acordo com Ramos, o Legislativo e o Executivo perdem credibilidade, deixando o povo “órfão de lideranças” comprometidas com a questão social. “É neste contexto que os militares ressurgem na política como justiceiros e salvadores da pátria credenciado pelo respeito e valor que a nação devota às Forças Armadas. Contudo, sabemos que eles, na verdade, no campo da política partidária são peixes fora d’água, com certa a exceções, não estando qualificados para o embate eleitoral visto que as estruturas de poder requerem mudanças em atenção à transparência, ao controle social e à participação popular empoderada nos movimentos e organizações sociais”, afirmou.

Prazo para militares

Os militares da ativa seguem regras diferentes dos demais candidatos à qualquer cargo eletivo. Eles não podem ter atividade partidária e não podem ser filiados. A lei eleitoral abre uma brecha que permite que eles somente se juntem aos partidos nas convenções onde os candidatos são oficializados pelos partidos, para depois serem registrados na Justiça Eleitoral.

Em 2018, as convenções partidárias acontecerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O prazo para registro na Justiça Eleitoral é 15 de agosto. Somente a partir da escolha na convenção é que o militar é considerado filiado. É neste momento que ele deve comunicar a decisão imediatamente a seu superior.

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