Dia da Pátria: Ramiro, o oftalmologista e os índios

Leia a coluna Taquiprati deste domingo, 11 de setembro, do jornal DIÁRIO DO AMAZONAS

“Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde) tão feias/ de minha pátria,
De minha pátria sem sapatos / E sem meias, pátria minha / tão pobrinha!”

Vinicius de Moraes, (1949)

Neste sete de setembro, vejo da janela do apartamento pessoas vestidas de verde-amarelo desfilarem na rua, algumas enroladas na bandeira do Brasil. Marcham sem máscaras para a manifestação, com cartazes e faixas agressivas que clamam pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal (STF). Nenhum protesto contra o preço estratosférico do combustível, do gás de cozinha, da energia, do feijão. Nada contra o desemprego, a inflação, a crise sanitária e política do país. Será que Ramiro, o oftalmologista está no meio delas?

Talvez não. Quem está ali é gente como a gente, pé-de-chinelo, com sandálias havaianas. Alguns desceram do morro do Cavalão, provavelmente recrutados por milícias paramilitares e digitais ou enganadas por falanges de pastores picaretas. Recuso-me a tratá-los de “gado”, embora marchem como bovinos para o matadouro, sem consciência de que servem de massa de manobra contra seus próprios interesses. Acreditam em mamadeira de piroca, fake news, cloroquina, voto impresso e no sol que dá voltas em torno da terra plana, porque diariamente veem o nascer e o pôr-do-sol.

Entre eles, é certo, há um cordão de fanáticos chamados de “patriotas” por Bolsonaro que aproveita a data cívica para esconder sua incompetência e para se livrar dos cinco inquéritos no STF que envolvem a famiglia: ele próprio, os filhos “rachadinhas” e apoiadores suspeitos de crimes. Além disso, duas apurações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Uma delas investiga mentiras disseminadas nas redes sociais com uso de dinheiro público. A outra apura atos antidemocráticos e golpistas.

Espelho da ignorância

Da minha janela, tento entender o que move essas pessoas, que pertencem a um grupo social antes silencioso, cujas ideias racistas, homofóbicas, negacionistas não encontravam eco na sociedade. Permaneciam sempre caladas e marginalizadas da vida política. De repente se sentem protagonistas da história, graças a Bolsonaro, “subletrado e espelho da ignorância” que os representa e que funciona como um “amplificador dos preconceitos” – como escreveu André Pontes, professor de Lógica do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Como explicar, no entanto, o comportamento do Ramiro, o oftalmologista, a quem procurei depois do feriado pátrio para uma cirurgia de catarata. Ele me explicou que faria pequena incisão no cristalino para a remoção da catarata e o implante de uma lente intraocular.

– Você vai poder enxergar com qualidade, sem necessidade de óculos – ele disse.

Depois de marcar a cirurgia e dar instruções para o pré-operatório, o dr. Ramiro puxou papo sobre as manifestações do dia anterior. Comentou que o grande problema na política brasileira é que a esquerda “torce contra”, quanto pior melhor, torce para o governo Bolsonaro não dar certo, não reconhece as coisas boas desse governo.

Diante do exposto, fingi concordar e disse a frase que os bolsominios gostam:

– Pois é, né, não deixam o homem governar….

O dr. Ramiro pegou corda e comentou que “a esquerda quer retornar ao poder para o seu projeto político de corrupção e do autoritarismo”.

Manicures nas tribos

Naquele momento, no seu consultório, a TV mostrava as manifestações indígenas em Brasília contra o marco temporal. O oftalmologista aproveitou para dar o golpe final, sem saber com quem falava, fazendo quatro perguntas:

1.Com todo respeito, gostaria de saber quem está financiando a presença de mais de 6 mil índios em Brasília?
2. Quem está alimentando esses índios?
3. Se querem manter suas tradições, por que ostentam aparelhos celulares mais modernos que o meu?
4. E por que existem manicures nas tribos?

Não valia a pena dizer para ele que professores, estudantes, antropólogos, indigenistas, médicos realizaram “vaquinhas” doando pequena parte de seus salários para a luta justa pela terra de índios acampados em condições precárias. Incapaz de um ato de generosidade, Ramiro prefere enlamear esse gesto de solidariedade, buscando ver “o ouro de Moscou” por trás das mobilizações indígenas. O curioso é que o oftalmologista não se preocupou em indagar sobre os recursos públicos como aeronaves e aparatos de segurança e o uso de toda a estrutura da Presidência para realizar atos com ameaças golpistas.

Além disso, calou sobre as notícias dos jornais relativas ao financiamento de arrozeiros e de empresários de vários segmentos diante da promessa de Bolsonaro de reverter a demarcação das terras indígenas. A previsão dos organizadores era lotar a av. Paulista com 2 milhões de pessoas (a PM calculou em 125 mil), o que só não ocorreu porque o STF mapeou o financiamento do movimento e bloqueou as contas certas e as chaves-pix.

Quanto as manicures nas “tribos” e o uso de aparelhos celulares, sem comentários. É muita indigência mental. Como é que um profissional formado em uma universidade é capaz de tanta imbecilidade e estupidez?

Despedi-me cordialmente. Depois telefonei desmarcando a cirurgia. Vou procurar outro oftalmologista. Ramiro, que é incapaz de ver o Brasil, não pode restituir a visão a ninguém. Ai pátria minha, tão pobrinha!

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