Amazonense é ‘promíscuo’ e ‘moralista’, diz pesquisa de Pollake, denuncia Dermilson

Conclusões preconceituosas estão em uma pesquisa paga com dinheiro público sem fonte de dados da jornalista Carla Pollake, eminência paga de Wilson Lima, feita na campanha de 2018

Manaus – O amazonense é “moralista”, gosta de se fazer de “vítima” é promíscuo e o principal sentimento é ter “vergonha”. Essas e outras conclusões preconceituosas estão em uma pesquisa paga com dinheiro público sem fonte de dados feita pela jornalista Carla Pollake, considerada eminência parda na gestão Wilson Lima, que não ocupava cargo e agia como assessora informal do governo. O material gráfico de luxo foi feito sob encomenda pela coordenação da campanha de Lima no período eleitoral de 2018 para orientar as ações da então futura gestão do governo. A denúncia foi feita pelo deputado Dermilson Chagas, que a encaminhou ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) e ao Ministério Público do Amazonas (MP-AM).

Pesquisa feita sob encomenda pela coordenação da campanha de Wilson Lima no período eleitoral de 2018. (Foto: Divulgação / Assessoria)

Dermilson Chagas disse que foi informado que, poucos dias após a cerimônia de posse do governador Wilson Lima, em 1º de janeiro de 2019, o Gabinete do Governador, juntamente com a Secretaria de Estado de Comunicação (Secom), realizou uma palestra para os assessores de comunicação das 67 secretarias, fundações e outros órgãos diretos e indiretos subordinados ao Governo do Estado.

A palestra foi apresentada por Carla Pollake, que se apresentou à época como a responsável pela Consultoria de Imagem do Governo do Amazonas, principalmente como a gestora de imagem do governador Wilson Lima, de quem é amiga pessoal. Durante a palestra, Carla Pollake distribuiu um livro, de 26 páginas, em cores, no formato 210×280, com encadernação de luxo e papel com gramatura de alta densidade (250g) em folha couchê fosco, produzido e custeado pelo Governo do Amazonas. No livro, a jornalista diz que se trata de uma pesquisa sobre o perfil do povo amazonense.

Uso de dinheiro público

A publicação informa também que o material foi escrito por Carla Pollake e que a revisão e diagramação ficou a cargo de uma agência de publicidade. Segundo a informação que consta no livro, a tiragem foi de 120 unidades. O deputado Dermilson Chagas explicou que realizou uma pesquisa minuciosa no Portal da Transparência e afirmou que não existe nenhuma referência aos gastos relacionados à produção desse material.

“Estou encaminhando essa denúncia ao Tribunal de Contas do Estado e ao Ministério Público do Amazonas para que o Governo do Amazonas informe os valores pagos pela produção desse material e, sobretudo, de que forma esse trabalho foi pago e quanto cada pessoa ou empresa envolvida na produção desse material recebeu por sua participação”, frisou Dermilson Chagas.

O parlamentar lamentou o uso de dinheiro público para custear uma produção que ele considerou “fútil”. “Esse recurso poderia ter sido usado para fazer o bem para a população, por exemplo, deveria ter sido investido na segurança pública, que necessita de investimento. Ao invés de ter custeado essa pesquisa fútil, poderia ter comprado armas, equipamentos ou munições para as polícias”, enfatizou Dermilson Chagas.

Preconceito e amadorismo

Na realidade, o que é apresentado como pesquisa sobre a cultura e o comportamento do amazonense é um amontoado de juízos de valor pré-concebidos, o que demonstra uma fragilidade de metodologia, a qual não possui nenhum indicador estatístico confiável.

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Pesquisa feita sob encomenda pela coordenação da campanha de Wilson Lima no período eleitoral de 2018. (Foto: Divulgação / Assessoria)

Somente para ilustrar o nível amador da pesquisa, que demonstra em vários momentos situações de preconceito na análise do povo amazonense, os dados apresentados por Carla Pollake afirmam que o amazonense é a favor da censura, é festeiro, gosta de se fazer de vítima, que é promíscuo e o principal sentimento do amazonense é ter vergonha. Nenhum dos dados apresentados na pesquisa possui indicação de fonte.

“Até a seleção das fotos que compõem o livro demonstra a visão preconceituosa que a autora dessa pretensa pesquisa. Por exemplo, quando se refere ao interior, mostra palafitas em mau estado de conservação; com relação ao comércio, mostra mais a fiação dos postes do que as lojas; quando se refere às pessoas, mostra idosos pobres em situações inapropriadas; e quando se refere à fauna amazônica, mostra somente uma onça, esquecendo a rica biodiversidade que nós temos e que é invejada no mundo inteiro, enfim, é uma pesquisa rasa de internet”, definiu o deputado, destacando que essas informações iriam nortear o Governo de Wilson Lima. “Por isso, que essa gestão é esse desastre e se vale do improviso e da falta de organização em todos os setores”.

Mais materiais gráficos sem informação

O deputado Dermilson Chagas também denunciou hoje, na tribuna da Assembleia Legislativa do Amazonas que existem outros projetos gráficos que foram produzidos, envolvendo diversos profissionais e empresas que também não constam do Portal da Transparência. Um deles é o Manual de Identidade Visual, impresso em encadernação de luxo e com as mesmas características de formato e de papel que a pesquisa feita por Carla Pollake.

“Isso é dinheiro público, e ninguém acha isso no Portal da Transparência. Quem foi que fez, quanto que custou e quanto cada um recebeu? Alguma empresa pagou isso por debaixo dos panos”, afirmou Dermilson Chagas.

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Eminência parda

Conhecida do ambiente político da gestão Wilson Lima, a jornalista Carla Pollake, eminência parda do governo, ficou famosa ao se envolver em polêmicas e deixar dúvidas ao prestar depoimento na CPI da Saúde na Assembleia Legislativa do Estado (ALE), em 2020.

Ao agir com usurpação de função pública, Pollake indicou ao governador Simone Papaiz para ocupar a Secretaria de Saúde ainda no ano passado. Meses depois, Papaiz foi presa pela Polícia Federal durante a Operação Sangria. Por sinal, foi Pollake quem apresentou a então nova secretária da Saúde, Simone Papaiz, em abril do ano passado, aos gestores da antiga Susam, sem a presença do governador Wilson Lima (PSC).

Apesar do prestígio que a paulista gostava de ressaltar entre os membros da gestão, ela não consta na lista de servidores, mas usava um cartão de visita com brasão do Estado em que se passava por servidora, sem ocupar cargo. Em uma breve pesquisa na web, é possível verificar que Papaiz trabalhou como Gerente de Pesquisa e Análise de Conteúdo TV A Crítica em 2016 e 2017, mesma empresa em que o governador trabalhou antes de assumir o cargo público.

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