‘Havia inconsistências no projeto e não assinei’, declara ex-secretário à CPI da Saúde

Rodrigo Tobias declarou que colocou o cargo a disposição por não ter apoio do governo do Estado e por se recusar a assinar o projeto ‘Anjos da Saúde’, com a coordenação de Carla Pollake

Manaus – O ex-secretário de Saúde do Amazonas, Rodrigo Tobias, prestou esclarecimentos durante reunião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Estado (ALE), nesta segunda-feira (29). Tobias declarou que colocou o cargo a disposição por não ter apoio do governo do Estado e por se recusar a assinar o projeto ‘Anjos da Saúde’, idealizado pela Agência Amazonense de Desenvolvimento Econômico e Social (Aades), com a coordenação de Carla Pollake.

Tobias começou o depoimento afirmando que sentiu falta de apoio do governo estadual, quando estava como secretario de Saúde. “Nossas ações não tinham apoio do governo. Em tudo a gente tinha que provar que estava fazendo uma boa ação, por isso coloquei o cargo a disposição. Pediram para eu assinar um projeto. Eu não sou de questionar ordem, mas não me explicaram o que era o projeto; havia inconsistências, então não assinei”, disse o ex-secretário.

CPI da Saúde ouviu o ex-secretário da Susam, Rodrigo Tobias (Foto: Marcos Lima/Divulgação)

O projeto em questão é o ‘Anjos da Saúde’, lançado no dia 09 de abril pela secretaria Simone Papaiz, substituta de Tobias na Secretaria de Estado de Saúde (Susam), com valor superior a R$ 6 milhões. “Recebi a informação do projeto durante o carnaval e que o governador (Wilson Lima) apoiava o projeto. Eu não fui convidado para nenhuma reunião, eu não tinha conhecimento prévio. A Carla Pollake pediu para que o projeto fosse aceito. Quando eu neguei a assinatura no primeiro momento, disse que tinha pendências e que eu precisava ver essas pendências” disse Tobias.

O deputado estadual Serafim Correa (PSB) questionou se Tobias conhecia Carla Pollake, citada no depoimento de João Paulo Marques, na última sexta-feira (26), como representante do governo do Estado que apresentou à Simone Papaiz, no dia 08 de abril, a diretoria da Susam. Papaiz assumiu a pasta oficialmente no dia 09 de abril. “Eu a conheço, mas não sei qual é a função dela. Ela era próxima ao governador e sempre estava nas reuniões com a comitiva do governo. Mas não sei dizer qual era o cargo dela”, disse Rodrigo Tobias.

“Quem trouxe a secretaria Simone Papaiz, que ninguém sabia quem era, foi a senhora Carla Pollake. Por isso que eu a denominei como ‘governadora’. O programa foi barrado porque havia inconsistências. Como o secretario não concordava, a Carla sugeriu outra secretaria que assumisse que o projeto era maravilhoso. No dia seguinte, as duas vão para frente do (Hospital) Delphina Aziz e lançam o programa. Isso é muito grave. Uma pessoa de fora do governo mandando no governo. Trocando secretários, apresentando secretários. O doutor Tobias foi retirado por não concordar com o projeto”, analisou Serafim.

Carla Pollacke e Simone Papaiz (centro) no lançamento do projeto Anjos da Saúde (Foto: Divulgação)

O deputado Wilker Barreto (Podemos) disse que faltou visão técnica da Susam. “São R$ 6 milhões, duas compras de respiradores na loja de vinho. Veio que a ordem de comando para a execução dos ‘anjos’ veio de alguém maior do que o secretário”.

Tobias foi questionado sobre quem daria poderes a Carla Pollake no governo. O ex-secretário respondeu que isso deveria ser perguntado ao governador Wilson Lima. “Ele é quem deve responder”, ressaltou.

Requerimento

No fim da fala de Rodrigo Tobias, o presidente da CPI, Delegado Péricles (PSL), votou o requerimento que pede a Aades e a Susam a documentação do ‘Anjos da Saúde’, como o projeto básico e a relação e pagamentos já realizados.

O requerimento foi aprovado por quatro votos a um. Só o deputado Dr. Gomes votou contra: “Sou contra porque não tem mais nada para esclarecer. Investigar o projeto não tem nada a ver, não tem ligação nenhuma com essa CPI”, justificou.

O deputado Serafim Correa disse que o contrato de R$ 6 milhões é uma questão muito delicada: “Essa Carla Pollake me incomoda. O poder que essa mulher tem me assusta. Que autoridade que ela tem? Já foi pago R$ 2 milhões e no total são R$ 6 milhões. É muito dinheiro”, destacou Serafim.

A CPI deve retornar nesta terça-feira (30). Será ouvido o ex-secretário executivo adjunto do Fundo Estadual de Saúde (FES), Perseverando da Trindade Garcia Filho, responsável por autorizar o pagamento da compra de 28 ventiladores pulmonares pelo Estado, por quase R$ 3 milhões.

Funções

Carla Pollake da Silva divulga nas suas redes sociais a empresa Pollake Produções & Consultoria, com sede em São Paulo. O capital social é de R$ 5 mil. Na sua rede social profissional ela cita que atuou na TV A Crítica, de fevereiro de 2016 a fevereiro de 2018, como gerente de Pesquisa e Análise de Conteúdo. Nesse período ela trabalhava com o governador Wilson Lima e com a secretária de Comunicação, Daniela Assayag.

O deputado Wilker Barreto disse, na sessão de sexta-feira (26), que Carla seria uma “marqueteira” do governo do Estado, mas seu nome não consta em nenhuma secretaria. O deputado Dr. Gomes argumentou que Carla seria uma “voluntária” no projeto Anjos da Saúde.

A jornalista Carla Pollake é casada com o psicanalista Inácio Ferreira. A cerimonia de casamento foi realizada em dezembro de 2019, no Estado do Espírito Santos, terra natal de ambos. Em matéria divulgada no dia 06 de maio de 2020, pelo site da Susam, consta que Inácio foi  contratado pelo projeto Anjos da Saúde, para o exercício da profissão.

Marido de Carla Pollacke, o psicanalista Inácio Ferreira, foi contratado pelo projeto anjos da Saúde (Foto: Divulgação)

Nota Susam

A Secretaria de Estado de Saúde (Susam) informa que o montante de 18 milhões abrange três contratos celebrados para a contratação de 30 ambulâncias dos tipos A, B e D, que oferecem serviços de remoção à pacientes de média e alta complexidade.

Nos contratos, com duração de seis meses cada, a empresa prestadora do serviço disponibiliza os veículos, bem como manutenção e combustível, além dos profissionais que atuam nos atendimentos, como condutor, médico e enfermeiro, sendo mais de uma equipe por plantão de 24h.

A Susam informa, ainda, que os três contratos foram precedidos pelo devido processo administrativo. Caso sejam identificadas inconsistências na contratação ou execução dos serviços, a secretaria prontamente irá adotar as providências necessárias à respectiva correção.

A pasta também reforça que trabalha com total transparência e que está sempre à disposição dos órgãos de controle para prestar as informações necessárias sobre todas as ações adotadas dentro da administração do sistema estadual de saúde.

***Matéria atualizada às 19h55 para acréscimo de informações***