Índios na universidade: a bolsa ou a vida?

Leia o artigo Taquiprati do Diário do Amazonas deste domingo, 17, assinado por José R. Bessa Freire

Manaus – Novecentos reais é muito ou pouco? Depende. Para 4.000 índios e quilombolas é a bolsa permanência na universidade, que representa a própria vida. Mas é uma merreca para o bolso do ministro da Educação, Rossiele Soares (DEM vixe vixe), condenado pelo Tribunal de Contas do Estado a devolver R$1.4 milhões por não comprovar o uso dos recursos financeiros, quando gestor do Fundo Estadual de Incentivo à Educação no Amazonas, comprovando assim que tem o perfil ideal para ser ministro do Temer. Tal bufunfa, que sai na urina do ministro, se dividida mensalmente em bolsa de R$900,00, manteria um índio na Universidade durante 130 anos.

O ministro, em um anúncio fúnebre na semana passada, decidiu cortar essas bolsas para “contenção de despesas”. Os protestos registrados em todo o país foram tantos, que ele agora recuou, o que foi comemorado na Unicamp, nessa sexta-feira (15), durante a defesa de tese de Luciano Cardenes, que discute justamente a educação superior indígena dentro do contexto da política indigenista no Brasil, a partir da presença de índios do Alto Solimões na universidade.

A tese, de extrema atualidade, compara a estrutura de dois cursos de licenciatura da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), o protagonismo do movimento indígenas e o perrengue pelo qual passaram os alunos, que fica visível quando o agora doutor Cardenes registra a escrita biográfica dos professores Ticuna, a partir dos trabalhos de conclusão de curso (TCC) e dos memoriais que lhe permitem analisar o gênero narrativo indígena.

Os cursos

O Curso de Pedagogia Intercultural (Proind) analisado na tese aconteceu de 2009 a 2014, a partir de uma plataforma digital em Manaus, no bairro do Japiim, com transmissão de aulas por vídeo conferência ministradas a 26l5 alunos, dos quais 745 eram indígenas de diferentes etnias, atingindo mais de 400 localidades em 52 municípios do Amazonas.

Já a Licenciatura para Professores Indígenas do Alto Solimões (Prolind) é o primeiro curso universitário a ser ministrado em terra indígena, de 2006 a 2011, quando a UEA se deslocou até a aldeia Filadélfia, em Benjamin Constant, transformada numa extensão do campus. No prólogo da tese, o seu autor descreve de forma supimpa a formatura por ele presenciada de 204 estudantes Ticuna, Kokama, Kambeba, Kaixana e Witoto, em 2011. Está tudo lá.

As regras de cerimônia de formatura, a decoração do espaço, o juramento, a entrega dos diplomas, os discursos, as gozações dos alunos, a discussão entre os índios sobre o traje ideal da formatura, a opção pela beca preta, o capelo jogado para o alto como a gente vê nos filmes americanos, o culto ecumênico, as comunicações e anúncios feitos durante a cerimônia em português e na língua ticuna, o coral Ewaré cantando na língua nativa Patchoru princesa (Minha princesa).

Trata-se de uma descrição fina, crítica e respeitosa de um observador atento aos mínimos detalhes significativos, escrito com qualidade literária, mas que observa a formatura como “um fato social total”, como uma situação social e ao mesmo tempo como ritual de passagem num contexto intercultural. Vale a pena reproduzir alguns trechos.

A formatura

“Era dia 14 de dezembro de 2011, quando cheguei ao município de Benjamin Constant para ter notícias do evento de formatura dos professores indígenas e fazer os primeiros contatos para a possível pesquisa sobre educação superior indígena junto aos professores Ticuna.(…) Naquela ocasião, toda a cidade de Benjamin Constant estava movimentada. Os moto-taxistas se amontoavam a beira do porto da cidade e saiam em disparada para voltar à disputa por passageiros que não paravam de chegar de Tabatinga”.

“Na feira de produtos agrícolas, um dos principais pontos de encontro do centro comercial da cidade, as barracas de café da manhã estavam lotadas e a chegada dos indígenas enchia os balcões dos comerciantes com cestos de farinha, caixas de goma, bananas e outras frutas silvestres regionais. Os vendedores das lojas de confecções e calçados anunciavam preços baixos de “sapatos e roupas sociais para a formatura”. Os dois maiores salões de beleza abriram cedo naquela manhã. Os donos de restaurante limpavam seus estabelecimentos e se preparavam para a clientela do almoço”.

“Nas ruas movimentadas do centro de Benjamin Constant, alguns indígenas andavam por pensionatos e pequenos hotéis ao redor da feira em busca de hospedagem. Foi assim que encontrei um dos professores Ticuna que me cumprimentou:

– Veio para a formatura professor?

Respondi com um aperto de mão e um abraço:

– Sim. Acabei de chegar.

Ele me disse que o local escolhido para a formatura desagradou aos professores indígenas e prontamente me respondeu: […] mudaram tudo professor! A UEA mudou tudo e a formatura agora vai ser na Quadra Frei Samuel.

Enquanto tudo era organizado sob forte orientação das agentes de cerimonial da universidade, observei um docente que se encarregava de explicar aos professores indígenas todas as regras da cerimônia de formatura:

– Vocês já vão chegar vestidos com a beca preta e vão se organizar em fila lá ao lado de fora. As famílias de vocês ficarão aqui dentro.

São apenas trechos do prólogo da tese, que merece ser lida e que foi aprovada pela banca, com mais um doutor em antropologia na praça.

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