Número 2 de ministério cita ‘cemitério de vacinas’, na CPI da Pandemia

Ex-secretário do Ministério da Saúde, disse que incerteza sobre imunizantes influenciou decisões

Brasília – O ex-secretário executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco citou a incerteza sobre a eficácia dos imunizantes em teste contra o coronavírus, o chamado “cemitério de vacinas”, e para justificar a demora do governo em comprar as doses. Em depoimento à CPI da Covid, nesta quarta-feira (9), o número 2 do então ministro da Saúde Eduardo Pazuello negou que tenha havido uma ordem formal para suspender as negociações com o Instituto Butantan, destinadas à compra da Coronavac, e apontou impasse legal para o atraso na aquisição de doses da Pfizer. Além disso, reforçou a tese do tratamento precoce, prática sem respaldo científico.

Franco foi confrontado, no depoimento de mais de oito horas, com a declaração do presidente Jair Bolsonaro de que não compraria a vacina desenvolvida pelo instituto paulista em parceria com o laboratório chinês Sinovac. Senadores também mostraram ali um vídeo de Pazuello, ao lado de Bolsonaro, no qual o então ministro dizia: É simples assim. Um manda, o outro obedece”. A gravação ocorreu em outubro do ano passado.

Franco disse haver dúvidas sobre a eficácia de vacina (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)

O presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas, declarou recentemente à CPI que as negociações para compra da Coronavac, naquela época, foram suspensas depois dessa manifestação. A versão de Franco, porém, é outra. “Não recebi ordem para interromper e as tratativas continuaram”, disse o coronel, classificando o depoimento de Dimas como uma “percepção”.

Para justificar a resistência à compra da Coronavac, no ano passado, Franco disse haver dúvidas sobre a eficácia do produto antes da conclusão da fase 3 dos testes e a falta de registro na Anvisa, embora o ministério tenha avançado com a negociação de outras vacinas nessa etapa.

“A fase 3 também é considerada como ‘cemitério de vacinas’ porque pode haver um insucesso no desenvolvimento da vacina. Então, o acompanhamento constante dos estudos clínicos, de dados do desenvolvimento, ocorria por parte do ministério justamente pela incerteza que essa fase pode vir a causar. A vacina, no seu desenvolvimento, na fase 3, pode não lograr êxito e não ser aprovada”, observou.

Quando senadores perguntaram a Franco sobre um vídeo onde ele aparecia dizendo que o ministério não compraria a “vacina chinesa”, a resposta foi a de que houve “politização” da crise pelo governo de São Paulo.

O vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), citou 81 correspondências da Pfizer desde 17 de março ao governo brasileiro, das quais 90% não foram respondidas. Ao falar à CPI, no mês passado, o presidente da Pfizer da América Latina, Carlos Murillo, afirmou que o governo Bolsonaro ignorou por três meses a negociação. Murillo presidiu a empresa no Brasil na época das negociações.

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