PF flagra empresa de lixo tratando de pagamento a secretário de David

Informações no processo, que corre em segredo de Justiça, colocam gestão de David Almeida no centro das investigações da Operação Dente de Marfim

Manaus- Interceptações telefônicas da Polícia Federal (PF) na Operação Dente de Marfim, flagraram o empresário Carlos Edson de Oliveira Junior, sócio da Mamute Conservação, Construção e Pavimentação Ltda., falando em pagamentos ao secretário de Limpeza Pública da Prefeitura de Manaus, Sebastião Reis.

(Foto: Divulgação/Phil Lima)

As gravações feitas com autorização judicial, colocam a gestão do prefeito David Almeida (Avante) no centro das investigações do esquema que apura sonegação fiscal, organização criminosa, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro com empresas contratadas pela Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp).

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(Foto: Polícia Federal)

As informações são parte dos argumentos da PF citados na decisão judicial que autorizou os mandados de busca e apreensão, no processo que corre em segredo de Justiça, a qual o D24Am e o Diário do Amazonas tiveram acesso. As interceptações telefônicas inseridas no processo apontam o secretário Sebastião Reis, o Sabá Reis, como beneficiário do esquema.

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(Foto: Polícia Federal)

O nome ‘Dente de Marfim’ é uma alusão à empresa investigada, a Mamute. Os agentes cumpriram, em junho de 2023, 16 mandados contra empresas e escritórios de advocacia suspeitos de fraudes em contratos para serviços de limpeza pública de Manaus. E foi realizada junto à Operação entulho, que investiga empresas que emitiram notas fiscais suspeitas de serem inidôneas, entre os anos-calendário de 2016 e 2021, no valor total de R$ 245 milhões, com sonegação fiscal estimada em mais de R$ 100 milhões entre tributos federais.

De acordo com a PF, as intercepções telefônicas apontam que as relações do sócio da Mamute, Carlos Edson, com a Prefeitura, “chega às proximidades pessoais”. E diz que, “há áudios comprometedores, inclusive com referência de entrega de valores ao secretário municipal”. E cita diretamente o secretário Sebastião Reis, identificado também como “vulgo Sabá”.

O documento expõe “a ligação entre Carlos Edson e Sabá”, que “constitui uma pista assaz (suficientemente, bastante) inspiradora da ocorrência de outros crimes aliados à sonegação fiscal investigada”. E, ainda, que “os áudios revelam que Carlos se propõe a levar valores pessoalmente ao secretário, ou seja, valores em espécie”.

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(Foto: Polícia Federal)

“No diálogo entre o investigado Carlos Edson Guedes de Oliveira Junior (sócio da empresa Mamute) e Francisco Ramos Pires, ocorridas em duas chamadas telefônicas no dia 05/04/2022, é possível identificar a figura de uma terceira pessoa tratada pelos interlocutores como ‘chefe’ e que gostaria de conversar com investigado Carlos (…) As investigações da autoridade policial levaram à conclusão de que essa terceira pessoa citada por Carlos Guedes Junior e Francisco, referenciada como ‘chefe’, possivelmente se trata do investigado Sabá Reis”, diz o documento.

E acrescenta: a autoridade policial relata que “durante o primeiro período de interceptação surgiram o indício de que o empresário estaria realizando o pagamento de vantagens indevidas ao então Secretário Municipal de Limpeza Pública senhor Sebastião da Silva Reis (…) mais conhecido como Sabá Reis”.

A quebra de sigilo bancário autorizado pela Justiça demonstrou que, em 2020, o escritório de advocacia Sandoval & Sandoval Júnior Advogados Associados recebeu valores da Mamute e, em seguida, sacou parte do valor em espécie, “com indícios de encobrimento da trilha do dinheiro”. E, segundo a PF, foi a partir da interceptação Carlos Edson Guedes de Oliveira Junior, sócio responsável da Mamute, que se obteve forte indício de que a empresa está realizando o pagamento de vantagem indevida ao atual Secretário Municipal de Limpeza Pública Sebastião Reis”.

Em diálogo interceptado pela PF, Carlos Guedes, pergunta a Wilhame Agnelo, um dos sócios da empresa, se o pagamento que falta programar é para uma pessoa que ele identifica como ‘Sabá’. “Wilhame responde positivamente à indagação de seu patrão e a partir desse momento eles evitam falar abertamente sobre o assunto, fazendo uso de frases evasivas utilizadas. Salvo melhor juízo, pelo contexto da conversa (pagmentos), é possível inferir que as frases evasivas utilizadas por ambos dizem respeito a dinheiro”, diz o relatório.

Então, segundo a interceptação telefônica, Carlos Edson diz que iria cuidar pessoalmente do pagamento: “Isso aí vai ter que ser eu mesmo que tem que entregar”, diz. Para a PF, a conversa demonstra que a Mamute tem compromisso com “alguém chamado de ‘Sabá’” e que “é possível extrair que esse pagamento possui grau de importância elevada para a empresa, pois teria de ser realizada pessoalmente pelo senhor Carlos Guedes Junior”. No diálogo com Wilhame, Carlos Guedes pergunta: “O que tem pra pagar já. É o Sabá é?” Whilame responde: “É”.

A PF também argumenta que os áudios capturados têm diálogos envolvendo Altervi de Souza Moreira, ex-secretário e atual subsecretário da Semulsp, também da gestão de David Almeida, e Carlos Edson. “É certo que alguma comunicação entre a empresa prestadora de serviços de limpeza com a respectiva secretaria do município sejam frequentes e necessárias, inclusive muito natural. Nessa ligação, nenhuma ilicitude é antevista. Ocorre que o teor de alguns diálogos descai exatamente para mesma linha investigativa sob perquirição. Desconfia-se, com razoável fundamento, que haja um acerto de favorecimentos em jogo, o que vem a reforçar as Interceptações anteriores e agudizar a desconfiança de que pagamentos estejam sendo feitos pela empresa á servidores com poder de gestão na prefeitura”, diz.

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