‘A vacina não será para essa onda da epidemia’, afirma Jorge Kalil

Diretor do Laboratório de Imunologia do Incor não acredita que uma vacina contra o novo coronavírus saia antes de um ano ou um ano e meio

São Paulo – O Brasil também participa dos esforços para a produção de uma vacina contra o novo coronavírus com pesquisadores do Laboratório de Imunologia do Incor, ligado à Faculdade de Medicina da USP.

O trabalho se diferencia da maioria dos que são feitos em outros países ao impedir a penetração do vírus nas células. O grupo, liderado por Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Incor, trabalha com partículas semelhantes ao vírus, ou VLP, na sigla em inglês. Elas têm características parecidas com o vírus, o que faz com que possam ser reconhecidas pelo sistema imune, mas não têm o material genético do vírus, o que as torna mais seguras.

“Lutar contra uma doença não é partido, não é ideologia”, afirma Jorge Kalil (Foto: Reprodução/Twitter)

Em entrevista ao ‘Estado’, Kalil, que teve de entrar em isolamento voluntário após seu filho ser contaminado com o vírus, explica como está essa corrida em todo o mundo.

Há muitos esforços sendo feitos em todo o mundo em busca dessa vacina. Isso deve acelerar o processo? Hoje o que o sr. diria que é uma previsão factível para termos o produto?

Existe uma profusão de propostas de vacinas contra o coronavírus. As farmacêuticas seguram um pouco os dados, mas há muita informação disponível, muita troca. Mas a vacina não vai ser para essa onda da epidemia. Não acredito que saia antes de um ano, um ano e meio. Muito provavelmente teremos antes algum medicamento já aprovado para outro uso que se mostre útil também para o coronavírus. Acho que isso vai sair logo.

O mundo científico já esperava que mais cedo ou mais tarde surgiria uma pandemia como essa. Qual era a preparação? Vocês foram pegos de surpresa?

Em 2017, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi lançado o Cepi (Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias), uma convergência de várias nações, universidades, institutos que dão recursos para o mundo se preparar para grandes epidemias. A ideia era ter protótipos de vacinas que pudessem ser acionados rapidamente. O mundo estava preocupado, sabia que podia receber uma emergência como essa. O que pegou de surpresa foi o fato de ser um vírus novo. Estávamos com medo da Sars. Esse coronavírus é um primo, mas o que estávamos estudando para a Sars não serve exatamente para ele. Sempre tenho a esperança de que vamos conseguir achar uma solução, mas neste momento não podemos contar que vamos ter isso agora.

Governantes em várias partes do mundo, como Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil, tiraram investimento da ciência. E ao menos nos EUA, Trump pediu ajuda da ciência agora para encontrar uma vacina. As reduções de verbas podem prejudicar o desenvolvimento de uma solução?

A administração Trump não acreditava muito na ciência e agora teve de voltar atrás e diz que tem a ciência mais forte do mundo. Os EUA são o que são por uma razão. Porque sempre tiveram uma ciência forte e fizeram grandes descobertas científicas e tecnológicas. No Brasil, tivemos um período de investimento que agora não temos mais. Mas acredito que ainda somos um refúgio que a sociedade tem quando enfrentamos um problema. Foi assim com o zika. Identificamos em tempo recorde a associação com a microcefalia. Houve uma contribuição de médicos e cientistas impressionante. Com a febre amarela, também tivemos uma reação rápida. Mesmo agora, sem dinheiro, estamos agindo rápido, com sequenciamento do genoma do coronavírus, com a produção dele em laboratório. Estamos respondendo, mas falta recurso. Espero que esse momento sirva para mostrar que a ciência não pode virar fator político. Que lutar contra uma doença não é partido, não é ideologia.

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