Estados apertam restrições contra Covid após recorde diário de mortes

Um dos primeiros Estados a dar sinais de esgotamento no sistema de Saúde foi o Amazonas

Manaus – Um estudo da Fiocruz, divulgado na terça-feira (2), revelou que, desde o início da pandemia, todo o País registrou um agravamento simultâneo de indicadores da Covid-19, como o crescimento do número de casos, mortes, a alta positividade de testes e a sobrecarga de hospitais.

O Estado amazonense viveu o estopim da crise de oxigênio. (Foto: Divulgação)

O boletim mostra ainda que, das 27 capitais, 20 possuem taxa de ocupação de leitos Covid-19 superior a 80%. Embora os dados sejam alarmantes, o estudo reforça que eles “constituem apenas a ponta de um iceberg de um patamar de intensa transmissão no País”.

Diante do recorde diário de mortes registrado ontem, quando 1.726 pessoas não resistiram, além de casos e internações, todos os Estados planejam apertar as restrições para contar a pandemia.

Em São Paulo, por exemplo, o Centro de Contingenciamento de Covid-19 junto ao governo anunciam, nesta quarta-feira (3), mudanças no plano de flexibilização das atividades econômicas. A previsão é que todas as regiões passem para a fase vermelha, etapa em que somente serviços essenciais permanecem abertos à população.

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A secretaria estadual de Saúde alertou que, nesta semana epidemiológica, oEestado tem 14,7% a mais de internações por Covid-19 do que o registrado no pico da primeira onda da doença, em julho do ano passado. Nas semanas anteriores, o Estado adotou medidas como um toque de restrição das 23h às 5h para impedir a realização de festas e eventos.

No interior do Estado, a ocupação de leitos de UTI e enfermaria fez municípios como Araraquara e Mogi Guaçu decretarem lockdown para conter a circulação da população e reduzir a transmissão do vírus.

Outros Estados já decretaram colapso na Saúde. No Sul do País, Santa Catarina sofre com a falta de leitos para o tratamento da doença e começou a transferir, nesta quarta-feira, pacientes com Covid-19 para o Espírito Santo.

O Estado capixaba, por sua vez,  já havia recebido 36 pacientes do Amazonas e 30 de Rondônia, que também foram transferidos devido ao colapso hospitalar em seus estados de origem.

No fim de fevereiro, o Rio Grande do Sul adotou medidas mais rígidas para evitar o colapso. O governo gaúcho suspendeu o modelo de gestão compartilhada, que dava aos municípios autonomia para gerir medidas contra a pandemia.

Todas as regiões foram classificadas com bandeira preta e terão que seguir rigorosamente as determinações da faixa, de maior risco de contaminação. No Centro-Oeste do país, o Distrito Federal começou um regime de lockdown de 15 dias no domingo (28). O decreto tem validade até 15 de março.

No início do ano, um dos primeiros Estados a dar sinais de esgotamento no sistema de Saúde foi o Amazonas, quando pacientes internados com Covid-19 sofreram com o desabastecimento de oxigêncio nos principais hospitais do Estado.

No dia 15 de janeiro, quando o Estado amazonense viveu o estopim da crise de oxigênio, médicos e enfermeiros relataram ter de diminuir o ar oferecido aos pacientes internados e, ao mesmo tempo, acalmá-los.

Na segunda-feira (1º), o coordenador executivo do Centro de Contingência da Covid-19 de São Paulo e ex-membro do Ministério da Saúde na gestão do então ministro Luiz Henrique Mandetta, João Gabbardo, afirmou que o país vive um momento extremamente crítico em meio a segunda onda da doença.

“O País inteiro está colapsando, então, não é mais possível que as medidas fiquem na responsabilidade apenas dos gestores estaduais, governadores e prefeitos. É impossível que a gente fique nessa pandemia sem uma unificação de conduta”, disse.

Ele cobrou que o Ministério da Saúde adote uma postura nacional de combate à pandemia com toque de recolher às 20 horas em todo o país.

“O Ministério da Saúde tem de assumir as responsabilidades desse processo, deve dizer a partir de agora que está proibido qualquer tipo de aglomeração e evento, o toque de recolher a partir das 20h em todo o país, o fechamento das praias por um determinado período, o reconhecimento de um estado de emergência e um Plano Nacional de Comunicação. Isso é fundamental para que tenhamos algum resultado daqui para frente.”

Ocupação de UTI no vermelho

Na última semana epidemiológica, que registrou os indicadores da pandemia de 21 a 27 de fevereiro, foi registrada a média de 54 mil casos e 1.200 mortes diárias por Covid-19. De acordo com o boletim da Fiocruz, o rápido crescimento dos indicadores conforma o pior cenário no que se refere às taxas de ocupação de leitos UTI Covid-19.

Das 27 capitais, 20 têm ocupação de leitos de UTI acima de 80%

Das 27 capitais, 20 têm ocupação de leitos de UTI acima de 80% (Foto: Divulgação-Fiocruz)

No sudeste, os Estados se mantiveram na zona intermediária de alerta, com algum crescimento dos indicadores em todos os Estados. No sul, todos os Estados permaneceram na zona de alerta crítica, superando a linha dos 80% de ocupação. Por fim, no Centro-Oeste, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso possuem 88% e 89% respectivamente entrando para a área crítica, somando-se a Goiás e Distrito Federal, ambos com índice superior a 90%.

Entre as dificuldades apontadas pelo estudo para enfrentar a pandemia, estão dificuldades de resposta de outros níveis do sistema de Saúde, morte de pacientes mortes de pacientes por falta de acesso a cuidados de alta complexidade, a redução de atendimentos hospitalares por outras demandas, possível perda de qualidade na assistência e uma carga imensa sobre os profissionais de Saúde.

O estudo ressalta que  possibilidade de ampliação de leitos de UTI existe, mas não é ilimitada. Entre outros elementos, se impõem a necessidade de equipes altamente especializadas para dar conta de cuidados críticos.

Em São Paulo, o secretário estadual de Saúde, Jean Gorinchtey afirmou que o Estado não descarta a possibilidade de reabrir hospitais de campanha. Entretanto, ressaltou que, nesse momento da pandemia, não se trata apenas de ampliar o número de leitos.

“Há uma limitação de recursos humanos, médicos, enferemeiras, fisioterapeutas. Precisamos que a população mude seu comportamento.”

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